29 setembro 2006

. ARTIGOS - O CIGARRO


Fuma-se um cigarro por duas razões:
- auto-flagelo
- queimar o tempo de sensação de impotência perante os vícios sociais
Que se escancarem esses grilhões que prendem o que se sente culpado perante as prédicas duma sociedade que se diz funcional e prometedora.
Se se entoa como se duma verdade iluminada se tratasse, aprende-se que tal aparente verdade absoluta será em efeito uma matriz indubitável enquanto todo o funcionamento que rodeia continuar pêrro como uma dobradiça de porta enferrujada.
Se os dedos tenderem a puxar o cigarro do maço, palitando-o na boca e respirando golfadas de oxigénio negativas pelo peso dum palco que fechou o actor, desliga-se esse lusco-fusco atordoante de poucos oxigénios e pensa-se no respirar de peito espetado, ainda que poluído o ar é sempre preferível ao chicote trago de fumo.
Crescer como quem se satisfaz espreguiçando distendendo os músculos moldados à fôrma de se morderem a si mesmos é coisa engenho do querer ignorar essa barulheira cacofónica . Já viciada consome O estar que agora se anicha num estar-se socialmente permitido e que antagonicamente destrói O estar primário físico. Matarmo-nos para quê?
Pela asneira do outro, da sociedade, do mundo e da guerra? Pelo compactuar com esses espinhos que biforcam a personalidade ainda que teimante se ressinta pelo ser-se socialmente excluído por essa massa que se vê domada e pseudo-confiante?
Os passos são os meus quando caminho como exprime Pedro Boavida (Pedras); a calçada está lá e é pedra antes de ser de alguém.
Vasculho o gosto de existir com o mesmo empenho de quem procura a morte lenta, pontapeando o catarro duma prisão que consenti amordaçar-me e sopro para o exterior sintonizando-me na nota que dê a consistência que penso ter perdido.
Que não deixe de soprar por pensar que a nota seja dessincronizada e que não pense que tragar fumo seja o sopro silencioso consentido. Passeia pela calçada.
Queres que o tempo não exista quando te debruças sobre ti mesmo e te achas feio e riscas a linha que escreves por ser tua a caligrafia. Róis a unha teu canibal, gémeo assimilador pai de Zeus que come os filhos; comes-te e ao teu gosto que implode contigo.
Se necessitas de mostrar pois teu reflexo é consistência, liberta-te na nota que se torna independente.

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