24 julho 2007

Instituto do Emprego e Formação Profissional

Estou deitado na cama com a cabeça a estalar, viro-me para um lado, coço-mo, venho para a net limar arestas no blogue, sinto as mãos a tremer, espero um e-mail qualquer, abro os correios com as pernas agitadas que fazem músculo no chão.

Volto para a cama, revejo a lista de cursos decorrentes desde Agosto a Outubro na Flag, potenciais cursos candidatos a bolsa, depois de toda a salganhada anterior. Alguma nesga de esperança, a cabeça estala por um pessimismo que reincide numa negação a um cruzar de braços pela confiança.

Reviro-me outra vez, sinto o coração palpitante e a cara está hirta, como eu todo estou hirto. Já nem sei respirar. Vou à sanita, leio em salto uma notícia, retenho o olhar num cartoon de António com Portas e Mendes, os dois muito caganitos no meio de pernas frenéticas gigantes. Esboço um sorriso mas fico mais palpitante.

Parto uma décima parte dum comprimido victan, e resolvo-me tomar esse bocadinho homeopático de ansiolítico. Reviro-me mais uma vez na cama porque não me sai da cabeça que no dia seguinte irei ao IEFP de Sintra. Tento contornar todo a viscosidade que me separa da pergunta à resposta e penso que irei questioná-los sobre o estado da candidatura à Bolsa de Formação. Já é manhã, janela azulada e vidros embaciados pela respiração, lá me anicho sem cuecas nas almofadas e adormeço.

Passados não sei quantos minutos o despertador toca. Porque para se estar no centro de emprego a horas "deve" estar-se com pelo menos 2 horas de antecedência à abertura do instituto. Vai-se à caça dos senhores doutores ou das senhas que se esgotam. Lá para as 9:30 da matina já é tangente e com muita sorte se marcam entrevistas. As pessoas vão bonitas bem arranjadas, tolas à espera de respostas concisas e apoio social. A esperança morre cedo por ali e umas já vão sacando do cigarro.

Mando-os à fava, ainda calmo do ansiolítico, pela treta das horas e dos pseudo-horários. Quero dormir mais um pouco e estou derreado. Acordo pelas 9:30 rameloso e vou lavar a javardice da louça dos três dias anteriores. Um esgar de ansiedade sente-se lá ao fundo amparado pela sinapse lá dos neurónios que não dão sinais de falta de electricidade. Tinha tomado banho no dia anterior sem luz, como quem se despega dum vício. Mantinha a barba por fazer e insisti em levar uma t-shirt ao contrário. Tive ainda o cuidado de rasgar as etiquetas para não tornar a coisa demasiado óbvia. Estava também camuflado pelo casaco preto de cabedal (roto na zona dos ombros).

O estupor do gato tinhoso parte-me um espelho que tinha posto no quintal.
Como bem e venho para aqui hipnotizar-me nas netes e caracteres meus que vou revendo quase em ciclo vicioso, tentando evitar pensar na angústia do IEFP. Mando suspiros para os ares, a respiração desengonçada é atenuada e aponto para a camioneta das 11:45. Tento distrair-me com situações paralelas e arredo caminho fixando o azul do céu e as silhuetas dos postes de electricidade.

Vêem-se caras desiludidas, sentadas, cabisbaixas, de braços cruzados e ombros descaídos, lêem jornais, com as olheiras penduradas, olham com traços de contenção para a televisão que passa programas infantis no canal 2. As expressões são de bovinos como eu que nada podem fazer contra lá a palavra dos senhores de cima. Ouvem-se os sonzinhos dos números correspondentes às senhas que vão passando num compasso balbuciante e arrastado. Chega um grupo de prováveis toxicodependentes em recuperação, falantes, ruidosos e querentes de chamar as atenções delimitando-se pelo timbre das vozes que enlaçam contestação sobre o interferir ao trabalho pelas horas perdidas no IEFP. Os funcionários não se vêem, pelo menos no piso 0. Metade deve ter ido almoçar.

Não sou capaz de ficar sentado e deambulo pelos cantos da casa. Não está o segurança para lhe fazer perguntas, não vejo o sr. Miguel o responsável pela avaliação das bolsas de formação com quem tenho trocado impressões sobre o decorrer da mesma e papeladas afins. Chega o segurança com cara de quem ou foi manjar ou foi fazer uma mija prolongada. Pergunto-lhe pelo sr. Miguel. Está de férias... Fico com um olhar mistura de tonto com fito do infinito qual carneiro mal morto respondendo quase só para mim mesmo: ai sim... e então não está cá ninguém que esteja a fazer a função do sr. Miguel, alguém que esteja encarregue das bolsas de formação? É que... calo-me.

A minha candidatura, segundo palavras do Sr. Miguel estaria potencialmente avaliada para fins de Julho. Eventualmente, talvez, quem sabe, provavelmente, estas coisas são imprevisíveis.

Olho de soslaio e vejo a sra. Alda Perdigão. Quem me entrevistou quando resolvi utilizar uma estratégia ofensiva saturada da inércia da espera, da sonegação e ausência de informação. Tinha-lhe enviado um recado pelo segurança e um e-mail fazia pouco tempo buscando saber novidades sobre o decorrer da candidatura ao curso de especialização tecnológica. Ia de encontro ao elevador cheia de pastas quando lhe toco no ombro. É claro que não me ia responder tão cedo. Já me tinha consciencializado ir receber um lamento ou sentença qualquer.

Ora vivas.
Olha-me com ar de espanto e notam-se os músculos da face ficarem mais congestionados. Quer-se desenvencilhar dalguma forma, é hora de almoço. E esboça o movimento que só não se perpetua pelo encontro desnecessariamente casual.
Viu os meus mails?
Quais mails? Foi só um mail.
Ah, talvez, foi um mail e um recado, pois.

Gostava de ter levado o leitor de mp3 para gravar a conversa e as afirmações, mas esqueci-me e estava muito pouco convicto de vir a encontrar a sra. Alda Perdigão.

Sinto trautear-me que está na sua hora de almoço e que reuniões só depois de Agosto. Arrebito o sobrolho e ponho a cara de lado eriçando-me pelo tique cultural, as fintas psicológicas apetrechadas de sofismas. O meu tom de voz já esboça uma irritação lá muito ao fundo que pode ameaçar uma explosão. Sinto o coração a bater e uma sensação tremelicante nas mãos, como o murro que não posso dar na parede ou na mesa. Sim, em todos eles, esbofeteá-los todos com uma raiva contida que implode implode pela contenção a um ripostar de cobardia plena que leva ao extremo...

Com um ar demagogo e lamuriante inundado de prédicas, a sra. Alda sentencia e vou ouvindo como sussurro ao qual retalio pelo argumento lógico e racional, mas perco:

- Senhor Zé Pedro, só depois de Agosto poderemos marcar uma reunião. Será contactado pelo IEFP.

- Ó Senhor José Pedro, não posso informá-lo sobre o desenrolar da matrícula ao curso de especialização tecnológica. Nós aqui não podemos fazer mais nada. Tem que ser em Agosto. Receberá uma convocação

- Mas o senhor Zé Pedro não se pode candidatar às duas coisas (reticências de suspense.... tendenciosas a uma exclamação lá ao fundo, longe mas será o ponto final) ... Ou é uma ou é outra (mais reticências....)

Sinto um arrepio na nuca e os dentes camuflados estão cerrados com não sei quantos kilos de força.

- E onde está isso explícito sra Alda? Coloquei essa questão ao sr. Miguel no principio, se não estou em erro, e não foram levantadas quaisquer problemáticas...

- (enxerta-me a pausa) Com certeza que não falou com o sr. Miguel, não é possível as duas coisas simultaneamente.

- (notícia fresquinha, quentinha e nova estava a deixar-me todo arrepiado) Então repare sra. Alda, preciso de saber qual o desenlace das duas candidaturas o mais brevemente possível, porque irá começar mais uma leva de potenciais cursos passivos de bolsa em princípios de Agosto... (a minha voz já está mais grave)

- Ó Sr. Pedro (expressão teatral de indignação), estou na minha hora de almoço, receberá uma convocatória do IEFP.

- Mas não existe alguma altura, antes da convocatória que possamos discutir sobre esta questão, relativa à não possibilidade de simultaneadade de matrículas e sobre o desenrolar das mesmas?

Tudo para depois de Agosto. É "necessário" ficar-se à espera duma convocação pelo IEFP.

Liberto-a porque era escusado irmos mais adiante.

Marco presença quinzenal, e volto cabisbaixo para casa. A sra. Alda estava cheia de pressa para almoçar e ter-me cruzado com a senhora foi uma "sorte" de mil em um. Que loucura ter podido falar directamente com a Dra.

Apanho a camioneta para Fontanelas.

Chego ao portão de entrada do condomínio ("casas de pescador") onde vivo e dou um salto de espanto interrompido pelos pensamentos ruminantes sobre Portugal.
Uma cobra bastante maior em comprimento do que o meu braço, amarelada e pintalgada esquiva-se ondulando de encontro ao portão de seguida escapulindo-se para a estrada. Estou de boca aberta por nunca ter visto uma cobra assim ao vivo, ali a um palmo de distância sem sequer saber se era venenosa ou não. O amarelo e o preto deixaram-me relutante, mas lá fui armado em Sr. selvagem tentando agarrá-la. Volta-se para mim de boca aberta na minha direcção e então decido não insistir mais na valentia.

Pira-se para o meio dos caniçais.

12 comentários:

  1. Muito bom!
    Não destruas estes textos Zé. Quando tiveres a quantidade suficiente, faz uma colectânea e tenta editá-la. A malta compra.

    O nosso país é realmente inacreditável.

    Abraço e boa sorte

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  2. vivas amigo

    Estou realmente desiludido com esta merda toda...

    Portas que se fecham atrás de portas.

    Parece que mais um blogue foi castrado o Btuga.pt

    Tá bonito isto

    Abraço

    PS: Aquilo da cobra não foi delírio literário, aconteceu mesmo e saltei que nem um cabrito montês.

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  3. Embora a situação seja dramática....Eh pá mas o texto tá cheio de humor, muito bem escrito, nem se dá pela sua extensão.

    Por falar em castração, li hoje no DN que os putos que apareceram na tv por ocasião do anúncio e visita (julgo eu) do nosso PM a uma escola contemplada com os pc's ao preço da chuva e sei lá o q, foram contratados através de uma agência que fez um casting e lhes pagou 30 eur por estarem uma manhã a ilustrar uma medida do governo.....uns quantos até já entraram em novelas...inacreditável

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  4. Muito obrigado.

    Estava mesmo a ler a tal notícia dos 30 euros quando recebi o teu comentário. Deixa-me cá lê-la com atenção que depois já venho dizer mal do 1º ministro - o animal feroz, a besta quadrada.

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  5. Bimbalheiros estes políticos... Terra da fachada. E vai-se engolindo em plena convicção.

    Decisões destas fazem-me lembrar as da tola da chefe do serviço educativo do MNA

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  6. MNA?

    Entao mas qual é a puta da complicaçao dos gajos te pagarem um curso de webdesign na flag (por acaso tirei lá um)? tens de ser mais carraça pá, bate o pé e diz q n sais de lá sem alguém te adiantar algo de concreto.

    quanto ao sócrates, por acaso considero que ele tem coragem política e vontade de fazer reformas e parece-me um tipo empreendedor só que peca por estes artifícios e por reagir muito mal à crítica

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  7. O problema agora é escolher ou uma bolsa de formação ou um curso de especialização tecnológica através do IEFP, quando dantes tal problemática não existia. Ambos estão empanados por não fazer ideia sobre o desenrolar da avaliação às matrículas (pelo IEFP, da parte da FLAG, no caso das bolsas, está tudo nos trinques).

    O que se prende aqui é que os senhores do IEFP, ao avaliarem tardiamente as candidaturas a bolsas (as de Janeiro só começaram em Junho a ser avaliadas nos respectivos centro de emprego - por ordem do IEFP geral), o que implica, que o candidato que queira frequentar determinado curso que já tenha começado, sujeita-se a subsidiar de seu bolso (sendo a posteriori restituido caso seja deferida a candidatura) arriscando-se a que a candidatura seja indeferida.

    Ora no meu caso, não existe sequer poder economico para investir nessa doideira de nem sequer saber o remate da avaliação da candidatura à bolsa. Seriam duplamente dramático investir de meu bolso, sujeitando-me ao indeferimento, o que me deixaria no mínimo, pelado da silva e sem quaisquer possibilidades de auto-sustento ou renda de casa.

    A coisa resume-se no momento: ou bolsa de formação ou curso de especialização tecnológica (c subsidio de alimentação e transportes) - decisão nova e inédita a ter que escolher um de dois.

    Vou escrever uma carta ao ministério do trabalho e solidariedade social buscando uma confirmação de tal dito.

    Dá uma vista de olhos aqui, o principio de tudo:

    http://tasfastas.blogspot.com/2007/03/carta-pedido-de-apoios-para-formao.html

    Sobre o Sócrates, todo a minha opinião caiu por terra aquando destas ocorrências que atentam contra a liberdade de expressão. Pior, uma não tomada de posição do 1º ministro, implica tanto um compactuar com, como um cinismo latente.

    Os casos de saúde chocaram-me profundamente, e a filosofia quase equiparável a uma empresa (uma espécie de esquizofrenia, isente de responsabilidades intrínsecas) que se nota pela parte dos órgãos soberanos, revolve-me as entranhas.

    Ora se um gajo dá um pum e cai-lhe toda a responsabilidade em cima por ter sido o causador, então um primeiro ministro não é responsável nem que seja por um repreendimento?

    Abraço

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  8. Sabes estas coisas n chegam ao PM. Não é ele que decide quem deve ser subsidiado ou reformado ou coisa que o valha. Estas situações não são novas e aconteciam igualmente no tempo do cavaco ou do guterres. Acontece que agora a conjectura é outra - aperto do cinto e perseguição dos media -. Duvido que sejam instruções lá do alto da cadeia que estejam subjacentes a estas ocorrências. É um facto que o tempo das vacas gordas já lá vai, a CEE já não nos inunda com dinheiros para investimentos, formação e estímulo e toda a cadeia sofre. E não estou a dizer isso por acção de qualquer simpatia política pelas esquerdas, pelo contrário movimento-me exactamente no pólo oposto.

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  9. Se não fosse tudo isto tão injusto para ti, e não te estivesse realmente a afectar, diria que está excelete, a tua prosa está cada vez melhor!
    Um abraço,
    Luís

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  10. Ah, camelozão que me comoves

    E esse artigo, quando vem esse artigo?

    Abraço

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  11. Hoje, um HOMEM, foi-se embora.

    http://cafepuroarabica.blogspot.com/2007/07/ingmar-bergman-foi-embora.html

    Um abraço!

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