18 junho 2017

Pedrogão Grande e o limbo num incêndio

Isto a propósito do artigo do jornal "Público" e duma certa reacção que se investe alergicamente contra o apoio público, dado o conjunto de manifestações e sintomas que vão definindo a má Governação do País evidenciada nestes contextos trágicos,


com fundamento, mas que não serve nem para olear esta máquina espontânea de solidariedade, nem o partir para a acção. Promove uma inércia e uma apatia que se resigna numa dúvida angustiante. A seu tempo, não neste de pouca dura, de decisões difíceis. Quando as cinzas assentarem.

Muito bem que existe uma desorganização implementada e uma ausência de comunicação entre os vários órgãos de qualquer serviço seja ele qual for, que se foram tornando culturais. Muito bem que em instância de força maior, pelo menos, deveriam ter sido as grandes cadeias de hipermercados as entidades que tivessem a obrigação de se terem tornado em pontos de abastecimento numa situação de crise deste calibre em vez da responsabilidade recair sobre o comum, as empresas antes do cidadão. Muito bem que existem mais que fundos suficientes para cobrir o dobro de reforços necessários nestas situações... e mais a concentração de eucaliptos para celulose, e a conversa fiada dos políticos, e a dissipação demográfica das zonas afastadas das grandes cidades e toda a falta de planificação e gestão para este género de catástrofe... 

Mas porra...! Quem me interessa a mim é quem está a fazer com que o combate aos fogos e a ajuda às pessoas seja possível, independentemente de tudo, são eles a força motriz, e sem eles a tragédia seria redondamente tétrica. Com todo o gosto, vontade e orgulho, resolvi dirigir-me ao quartel dos Bombeiros Voluntários De Lisboa no intuito de lhes oferecer uma dúzia de águas das pedras e garrafas de água oxigenada para o que desse e viesse, para eles, para as vítimas, para quem precise, uma caganita de ajuda agradecida com sorrisos sinceros. Pois senti-me bem, porque toda aquela mobilização é verdadeira. Senti-me útil e desprendido dum ruminar crónico de justificar-se a apatia pela crítica do que está mal. Que está está, mas isso nada tem a ver com os solidários, aqueles que estão a dar de si em prol dos outros.

Chegava um carro de Pedrogão Grande que não conseguia passar porque estava um carro mal-estacionado na curva que dava para a rua do quartel. Durante o tempo em que lá estive ouvia-se o buzinão que apitava cadenciadamente como um petroleiro a bufar já rouco mas sem que houvesse maneira do carro mal-estacionado se demover dali para fora. Lá o carro dos bombeiros já sem voz, porque de maus costumes se tornou hábito deste país, se teve de armar em malabarista, porque não há tempo para areias movediças.

Vinha a pé um bombeiro suado, com olheiras de cansaço dizendo às colegas que iam recebendo outras pessoas que também voluntariamente traziam coisas, que aquilo lá em cima estava mais calmo, mas que era mesmo um inferno. Ainda quis documentar fotograficamente o que se passava ali no quartel, mas nem eu nem a minha companheira estávamos com as cabeças viradas para baterias descarregadas de telemóveis, ou sequer para eu me lembrar de o ter trazido.





fotografias da autoria do jornal Público

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