. CONTO DE NATAL (1997)

Era Inverno, as ruas estavam aquecidas por cobertores de neve, os prédios perdiam o azedume cinzento e os carros encalhados e impotentes até faziam repousar os ouvidos…

Faltava-lhe qualquer coisa no sangue; o besunto que engendrava os órgãos, tecidos e artérias de seu corpo engelhado e carcomido: a branca amiga poeirenta não lamuriava nem tornava a carcaça dolorida, repetidamente o seu alento não ficaria desiludido em sua nobre missão.

Estava envolvido num êxtase de ansiedade; como um miúdo antes de abrir uma prenda oferecida, mas como bom drogado que era, desesperava; sôfrego, a trepar pelas paredes por uma boa picadela, já agora misturada com sangue, porque amanhã ainda se esmifrava: o bocadinho fazia por render, valia-se. Pão Nosso.

Só via a maldita heroína em tudo o que fosse canto, e angustiava por dar de caras com o dealer da esquina, o muito apetrechado Sebastião do bairro.
Por momentos ao ver dois catraios a correr na neve, suspiraram-se-lhe recordações, de quando ainda olhava para a neve de outra maneira… os olhos ficaram humanos, aguados e entristecidos revoltados com a miséria deste mundo.

Para quem passasse, diria que tinha uma valente pedrada nos cornos…



A troca foi feita.
Desatou a correr, abrindo caminho pela neve com todas as suas forças, desbastando teias e matos imagináveis, na sôfrega procura dum pequeno nicho onde pudesse esconder e refugiar a rica prenda, até já nem precisava da rançosa esbranquiçada. Como os brinquedos, a droga conquistada perde toda a sua piada. O que se gosta é olhar para os vidros das lojas e observar, observar e esperar.
Mas parecia-lhe correr há uma eternidade...

Subitamente sentiu uma dor na perna.



A fome alvadia foi saciada. Ingeriu-a duma só vez, através dos poucos canais que restavam ainda não profanados.
Só que desta vez não foi fome, foi gula.



A última coisa que viu antes de esborrachar as trombas no asfalto foi luz. Não soube se da morte de overdose, se reflexos de toda aquela brancura que o rodeavam.



Quando voltou a si, desta vez, estava deitado numa cama. Os lençóis eram limpos e macios, havia cheiros agradáveis no quarto.
Calhou naquele instantinho passear por lá, na nossa avenida branca, um querido “pai Natal garrido” pessoa.
Talvez na Páscoa continue com a perna agarrada ao corpo, ensanguentada e gangrenada, num qualquer beco infestado de nojo e pestilências humanas, com aquele brilho infantil nos olhos, mas a mesma demência que não pára,

á espera, sempre à espera, até que os olhos se fechem, a dor alivie e o sofrimento acabe, espapaçado numa acolhedora pocilga, possivelmente ainda e para sempre recheada e coberta de neves; luzentes que ferem, condenam e consomem as almas cansadas...

Era Inverno... e os carros impotentes e encalhados até faziam repousar os ouvidos...

Comentários

  1. Já conhecia este conto, mostraste-me na altura mas vê-lo assim ilustrado é outra coisa! Umas boas festas com o que te apetecer mais! Um grande beijinho para ti Zé

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  2. Um grande beijinho para ti. Depois da transição do ano a ver se se combina qualquer coisa.

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  3. então estou a espera de mais cenas neste blog

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  4. A real dureza das palavras em que se escreve um conto de Natal sem dúvida diferente... tudo isto retratado com ilustrações de excelência!!!

    Muito bom, os meus parabéns Zé!!!

    Beijocas!!!

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  5. Obrigado pela tua apreciação Mbb. Tentei chocar aquela imagem do sonho americano

    Beijos

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