. É GRAVE - PORTUGAL E A SUA AUTO-IMPOSTA CONDIÇÃO

Quem tenha deambulado por estas bandas em probabilidade ter-se-à deparado com o artigo que escrevi sobre o decreto-lei inerente à questão da mulher poder decidir sobre a interrupção voluntária à sua gravidez até às duas semanas de gestação. No seu seguimento transcrevo um mail que recebi aludindo à forma como as mentalidades portugueses encaram a sexualidade. Digo "As" mentalidades, porque se a educação sexual é algo ainda tabú, a transmissão cultural sobre tal abordagem de assunto ainda é a mesma nos progenitores, e se tal assunto ainda levanta tanta problemática tal como a virose já hiberna nas gerações vindouras, então "As" serão "Os" representantes duma mentalidade que ainda teima em persistir despojando novas mentalidades propensas ao conhecimento e ao combate à ignorância.

A ponte entre o artigo e o mail estabelece-se pelo fanatismo religioso que paira nalgumas muitas mentalidades apologistas à defesa dum "sim" à vida como se dum lado existisse um paladino reluzente de prata e do outro um pardo demoníaco libertino e oco de conteúdo moral, ético, etc, etc., disputando-se a defesa da existência humana sob forma embrionária, indefesa, passiva de ser vilipendiada pelas garras desse prostíbulo, antro de mentalidades anormais.

A estupidez e ignorância são duas carraças caso se queira considerar realmente as problemáticas consequentes à sexualidade.

Nasci num seio aparentemente liberal, no entanto profundamente conservador.
Tão normal seria sentir-me culpado por uns quaisquer protagonistas que se enrolavam em cenas de sexo quando se via televisão em conjunto naquela casa.

Ou tão normal seria nunca se ter falado de questões sexuais, ou tão normal seria o filho desistir e repelir qualquer abordagem a tal assunto após sucessivas negligências paternais sobre.

Ou tão normal seria descobrir-se material pornográfico quer em gavetas, quer em prateleiras de quiosques, como única fonte educativa.

Ou então e em último degrau, pelas experiências individuais onde se acaba por descobrir a bem ou a mal o âmago prático sexual com a ajuda do manual recolhido autodidaticamente. O que, estatisticamente é um parâmetro deveras instável, pois as consequências serão tendenciosas para o erro e como tal para as consequências adjacentes. "Logicamente" que posteriormente, toda a carga de culpa será atribuída àquele que "cometeu" o "erro".

Considero algumas coordenadas pilar a esta temática educativa:

- educação familiar
- educação escolar
- fluidez social em abordagem de temática
- não tabú

Penso que chumbem todas elas presentemente, apenas em nichos (pequenos meios) se passe o contrário, sendo os nichos associados a antros e como tal derivados de esconderijo. E esconderijo é palavra associada a escondido, não mostrado. E não mostrado quer dizer não socialmente aceite. Tal como o aborto, era aceite, mas não era, talvez sim, meio assado como satirizaram os "Gato Fedorento".


Apresento os mails que recebi:

Olá a todos e a todas
Reencaminho uma mensagem pertinente que recebi, que chama a atenção para as incongruências de alguns grupos políticos e de cidadania do nosso país que se mobilizam de forma demagógica e egoísta. No caso concreto, sobre alguns grupos defensores do NÃO na discussão recente do referendo pela despenalização da IVG, quanto aos seus argumentos de resposta ao problema. Se bem se lembram, para além do argumento sensasionalista da criança-no-útero-que-já-chucha-no-dedo, alguns destes grupos defenderam na altura,aguerridamente, o desenvolvimento e a implementação de um programa estruturado de educação sexual nas escolas - como forma de manter a lei exactamente como estava mas resolvendo parte do problema (ou Todo o problema, segundo a sua visão). Ora, a discussão actual sobre a transmissão do programa de educação sexual na RTP2 e as preocupações egoístas (e esquizofrénicas) desses grupos (que nos afectam a todos, infelizmente) são reveladores da pobreza e incoerência dos seus princípios. Podemos pensar em relação a este aspecto concreto, mas também em relação a tantos outros. Na realidade, só se trata de uma reafirmação. Se tiverem interesse, vejam por vocês.

Irina Pereira

------

Meus caros,
Para não nos ficarmos pela boca ocasional, venho aqui recordar um debate que todos travámos. Na altura todos os defensores do não apoiavam o alargamento da educação sexual nas escolas. Caso também se recordem, o programa sociedade civil da fernanda freitas organizou uma série de debates sobre o tema. Entretanto a Ana Líbano Monteiro, da família Líbano Monteiro ( mais conhecida pela João Líbano Monteiro e Associados, uma agência de comunicação geralmente associada às campanhas do PSD e que desempenhou um papel fundamental na campanha do não aquando do último referendo) e responsável pela http://www.move.com.pt/, Movimento dos pais, tem sido uma das principais figuras públicas que se opõe, através da sua associação, à transmissão do filme sobre educação sexual na RTP.. Melhor ainda no dia 31 de Maio ( http://multimedia.rtp.pt/index.php?vid=1 sociedade civil 2ªa parte de 31-05-2007) às 23:30 houve uma emissão especial do programa Sociedade Civil para que pais pudessem ver se consideravam o programa apropriado para as suas crianças. Não contentes com isto os senhores e as senhoras do Move não querem só sonegar o acesso à informação às suas proprias crianças como lançaram um abaixo assinado para impedir a RTP 2 de tramsitir o programa. É bonito e é democrático e respeita não só as liberdades dos outros como também os compromissos que estes mesmos senhores haviam assumido durante a campanha, não é? Melhor ainda se forem averiguar mais fundo no site vão encontrar inúmeras diatribes contra a introdução de um programa de educação sexual nas escolas, ainda em 2005.

Rahul Kumar

----

Apresento os links aos pontos vitais desta questão:

Site do movimento que contesta o filme de animação de educação sexual que foi divulgado no canal 2 :



O programa-debate no canal 2 sobre a projecção do filme de animação sexual, alvo de contestação pelo movimento referido:
  • (mms://195.245.176.20/rtpfiles/videos/auto/scivil/scivil_2_31052007.wmv)

Comentários